20.4.14

Solitude

Se tem um defeito bobo em mim que eu tenha plena consciência é ser extremamente lenta na fixação de alguns hábitos, na maior parte das vezes, porque tenho medo. Seja ele irracional, ou apenas baseado em um receio lógico em falhar e, consequentemente, ter de lidar com a decepção. Mas, passada essa fase, uma vez que eu domino um hábito, costumo praticá-lo com maestria por muito tempo. Enfim. Este post não tem o intuito de explorar os mecanismos do meu cérebro e seus devidos bloqueios covardes, essa foi apenas a tentativa de uma introdução para uma história pessoal.

Imaginem vocês que até os oito anos de idade eu tinha medo de ficar sozinha em casa. Não por temer ser abandonada, nem pelo que pudesse acontecer enquanto meus pais estivessem fora. Era não suportar o silêncio durante a ausência deles e a sensação do tempo se arrastando. Então, se minha mãe precisasse dar um pulo no mercado para comprar salsinha, eu ia junto, e se meu pai tivesse de ir à farmácia comprar um de seus remédios, eu ia junto também; relevando o fato de que moro num bairro residencial e que esses estabelecimentos de conveniência ficam a uma quadra de distância. Mas um belo dia eles foram à feira, eu decidi ficar e sobrevivi. Logo, passei a esperar em casa mais vezes e superei as sombras do tédio.

O próximo passo foi me acostumar a voltar da escola sozinha, nos últimos meses da 4ª série. Assim como o mercado e a farmácia, a escola onde cursei o fundamental ficava a uma quadra de distância, e eu só precisava atravessar a rua, seguir reto e virar à direita quando chegasse à esquina. Na primeira vez, devo ter enrolado uns vinte minutos no pátio da escola antes de decidir ir para casa. A princípio foi estranho percorrer aquele curto caminho sem conversar com a minha mãe sobre a aula, mas em menos de uma semana também me acostumei.

Nos anos posteriores o meu maior desafio foram as amizades transitárias. De alguma forma, não me sentia à vontade nos grupos em que eu me encaixava e não durava neles mais do que um ano. Aceitei que a minha pré-adolescência seria mais desastrosa se eu continuasse nesse barco de instabilidade social cercado por modinhas malucas, e quando ingressei no Ensino Médio assumi uma postura que se desenvolveu para tornar o que eu sou hoje: a postura de isolamento. Considero essa fase crucial na minha vida, porque eu apenas peguei a minha introversão e a exercitei em meu favor. Antes de descobrir onde e com quem eu queria estar, eu precisava descobrir quem eu era e para onde eu gostaria de ir. Durante as aulas, eu sentava no fundo da sala com os fones no ouvido, e observava o que acontecia ao meu redor. Quando eu chegava em casa, usava meu tempo livre para ler, e refletir sobre a vida, o universo e tudo mais. Foi nessa mesma época, que desenvolvi a minha escrita e criei o extinto No communication aqui no Blogger, antecessor do dreams & dramas. Em pouco tempo eu passei a evitar movimentações e medir as minhas palavras. Senti uma diferença enorme. Nunca tinha percebido o quanto a convivência obrigatória poderia ser tão desgastante.

Recentemente, parei de considerar a companhia um requisito para sair. Agora tenho uma lista fixa de amigos compatíveis para recorrer, mas o quão chata é a incompatibilidade das nossas agendas? Percebi que não queria deixar de sair e fazer isso ou aquilo só para esperar determinada pessoa ir comigo. No começo do mês decidi andar por aí sozinha depois da consulta com a dermatologista. O tempo estava nublado, ameaçando chover de novo. Entrei nas lojas que quis entrar, e me demorei na livraria como gosto de fazer. Tomei um frozen yogurt antes de pegar o ônibus e poucas vezes me senti bem daquele jeito. Me senti tão bem, que naquela hora me preocupei em abraçar demais a minha própria companhia e perder o balanço que eu tento manter. Mas, não vejo isso acontecendo.

A solitude é uma solidão poética e voluntária, rezam as definições. Minha inclinação por ela não é nata como a história mostra, mas muito bem adquirida. Eu gosto do meu quarto, do silêncio, dos meus livros e do barulho de chuva (como o que estou ouvindo agora ). Assim como gosto de, às vezes, ligar para minhas amigas e sair para ver um filme e comer. Acho que a recompensa mais valiosa que a solitude me proporcionou, no fim, foi o meu próprio amadurecimento.

30.3.14

Capelos para o alto

O dia era 30 de janeiro de 2014. Senti que o momento há tanto esperado começou no táxi a caminho do local da cerimônia. Na metade do trajeto começou a tocar Dancing Queen na rádio e eu considerei isso um bom presságio para a minha colação de grau. Nos meses finais da graduação e nas semanas anteriores a esse grande dia, tentei não pensar muito no fato de que eu finalmente me formaria, para não despertar minha ansiedade. Era mais uma etapa que se concretizava e tudo aquilo ainda parecia fora da realidade. A ficha só caiu quando ABBA começou a tocar, mesmo e o motorista do táxi puxou uma agradável conversa sobre a vida dele nos anos 70. Esta é quarta formatura na minha linha do tempo, e eu deveria estar acostumada com todo o processo, porém, por cada uma delas representarem uma diferente fase da vida, carregam também sentimentos diferentes. No fim de dezembro eu já estava com um humor nostálgico, lembrando de tudo que estava ficando para trás. Pensei nas coisas que aprendi e passei ao longo desses três anos (curso de curta duração ftw) de estudo. E percebi que agora sou uma pessoa diferente da qual eu era quando pisei no campus pela primeira vez.

Em 2010, decidi optar por Letras no primeiro ou segundo bimestre do 3º ano do Ensino Médio, uma época um tanto "em cima da hora" para quem só pensava nos vestibulares, mas me finquei com convicção na minha escolha e isso me manteria com os pés no chão durante o processo. Àquela altura eu já tinha clareza do conforto que eu sentia ao me debruçar sobre os livros, e da faísca de satisfação que brotava no meu peito quando alguém elogiava algum texto escrito por mim. E mesmo que fossem elogios por educação, eu queria que isso fosse algo em que eu fosse boa, então eu fui atrás.

Ingressei na universidade cheia de expectativas pessoais e acadêmicas, e cheia de receios também. Lembro de ter hesitado na porta da sala de aula nº 306 e escolhido um lugar quase na frente para não correr o risco de me distrair durante as explicações. O quadro de aulas que me deram no momento da matrícula me assustou, pois antes as matérias que eram apenas "português", "matemática", "biologia", agora se designavam por expressões do tipo "Tópicos de Literatura em Língua Estrangeira I: Inglesa", em diante. Pois é, pronunciar esses nomes, a princípio me dava frio na barriga. Isso porque eu era uma menina boba (mais do que agora): foi questão de tempo até eu me ajustar à nova rotina, como em qualquer outra etapa dessa vida. Tive de me adaptar à seriedade dos trabalhos e das leituras, e me acostumar com a liberdade a mais do que tínhamos no Ensino Médio. (Vejam bem, eu disse "a mais" e não "integral". Apesar dos comentários que ouvimos por aí, estar na faculdade não significa Carpe Diem, e te aconselho a usar o livre arbítrio com responsabilidade).

Aos poucos fui achando cantinhos na universidade para servirem de cenário para minhas novas memórias. Aos poucos me acostumei com o ambiente da biblioteca, embora jamais tenha me acostumado com o código de organização. Aos poucos fui conhecendo as pessoas da turma, fazendo amigos. Conversando, rindo e - por que não? chorando com eles. Tive sorte de ter terminado em um lugar com pessoas decentes, e professores que não só portavam conhecimento, como também gosto pela profissão e carinho para com os alunos. Bom, pelo menos, a maioria deles. Depois fui introduzida a Bechara, Travaglia, Saussere, Bakhtin, Shakespeare, Flaubert, Poe, Vygotsky, Piaget, Paulo Freire, etc., e fui me sentindo em casa. Lembro, com certa curiosidade, da desmistificação de muitas das minhas expectativas. Por exemplo: eu sempre imaginava que passaria minhas aulas vagas na biblioteca,  estudando, quando, na realidade, aproveitávamos a primeira oportunidade para ir ao bar da esquina comer batata-fritas. E esta foi a minha maior falta.

Em meio a uma sequência de aprendizado de naturezas diversas, e muitos desafios (lê-se "estágios"), o resultado final é compensador. Um mês antes da colação fui assistir Frozen e ao final da sessão passei na Saraiva e encontrei Os Contos da Cantuária na prateleira de literatura estrangeira. Quando tomei-o nas mãos, imediatamente regressei para o primeiro ano da faculdade, na aula de Literatura Inglesa, em que meu grupo apresentou o conto da Prioresa, acho. Junto a esse, muitos outros nomes foram guardados, e levo até Madame Bovary no coração, apesar de todos seus defeitos. Estou falando, é claro, de títulos e nomes fictícios, mas existem nomes de personagens reais igualmente significativos nessa história aos quais eu sou grata por ter conhecido. Sem mais delongas, o que venho tentando expressar é a minha satisfação em ter trilhado um caminho que sempre considerei importante, e que foi concluída quando eu joguei meu capelo para o alto.

Entrada do auditório, morrendo de calor debaixo dessa beca.

 
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