17.12.14

86

Quando alguém tenta adentrar o meu mundo, uma das primeiras coisas que eu preciso deixar claro é que a minha vida não é nada convencional em certos aspectos, e tendo eu um vínculo indissolúvel com eles, preciso que respeitem minhas circunstâncias como parte dessa empreitada (em troca, posso oferecer a minha mais sincera amizade e lealdade, mas durante o caminho só preciso sentir que é sincero). A começar pelo fato de que meus pais têm, muito bem, a idade para ser meus avós. Na verdade, muitas pessoas ainda nos confundem, e não conseguem disfarçar o espanto quando eu os corrijo. É engraçado.

Quando nasci, meu pai tinha 64 anos e estava a um ano de se aposentar. Minha mãe tinha 42 e estava a um ano do fim de suas chances de ter um filho. A combinação dos dois é deveras peculiar, e o meu caso, bem sei que não é o único no mundo (certa vez, a revista que vem no jornal de domingo fez uma matéria sobre isso, e foi bem interessante de ler, considerando minha questão de identificação). Existem dificuldades? Sim, existem. Mas a vida não é impossível. O mundo só vira de cabeça para baixo quando os nossos valores colidem. Quando há falta de compreensão, da parte deles, que eu preciso viver de acordo com os costumes atuais, e quando há falta de paciência, da minha parte, em saber lidar com o fato que eles têm visões de mundo enraizadas de outra época. Também existem outras limitações, como não fazer viagens longas, porque a energia para tal não mais a mesma. Chegamos a passar uns dias no interior do Nordeste, no entanto, há mais de década. Acho que cheguei a mencionar isso em algum post.

Se vocês estiverem se perguntando o motivo de eu estar tocando nesse assunto, explico: hoje é aniversário do meu pai, e ele está completando 86 anos. Quando olhei o calendário e percebi que a data se aproximava, uma sensação de gratidão começou a brotar em mim, porque a vida é tão efêmera. Desde que tomei consciência das circunstâncias, ainda na infância, cresci com o medo do fim, que poderia, aliás, pode acontecer a qualquer momento. 

O motivo pelo qual o meu pai decidiu ser pai novamente no início da última fase da vida, ainda é um mistério para mim. Mas como provedor, ele nunca falhou. As horas vagas da aposentaria ele aproveitou até os meus oito ou nove anos, depois inventou de comprar um táxi e desde então ele trabalha de segunda a segunda, 8h - ou mais - por dia. Só para ter a certeza de estar cobrindo as todas garantias possíveis para mim e minha mãe no futuro. E até agora, devo dizer que ele está fazendo um ótimo trabalho. O diploma em pergaminho pendurado na minha parede é uma das evidências. Muita gente admira a determinação dele com o trabalho, falam que é raro encontrar quem faz igual. Como referência, grande parte dos méritos que eu conquistei e quero conquistar vieram dos discursos e dos exemplos que ele me deu. Como pai, às vezes ele cumpriu o papel, às vezes não. Durante o primário, eu nunca fui para a escola com uma tabuada não feita - pelo contrário, eu estava sempre um pouco à frente da classe. Até os sete anos ele me acordava e me levava para a cozinha, para tomar nescau antes da natação. Frequentemente, durante todos esses anos, ele discutia com a gente problemas que não diziam respeito e se distanciava. Até hoje nossa comunicação em problemas pessoais é falha.

O maior desafio para mim até hoje, foi perceber que a partir do momento em que eu parei de depender dos meus pais em certos assuntos, eles passaram a depender de mim. Não houve tempo para transição, e não tem como não deixar de cumprir o dever. É uma responsabilidade mútua, com vários impedimentos. Não posso ser a filha que liga para o pai buscá-la nos lugares de madrugada, por exemplo, mas de certa forma sou incentivada a andar com as minhas próprias pernas e inverter os papeis. Por vezes me sinto frustrada, a ponto de, nas crises, querer desistir. Então eu me forço a lembrar que, considerando tudo, estou em vantagem por tê-los comigo. Se eu mantenho o melhor dos comportamentos como filha, é por sentir que isso é o mínimo que eu posso fazer nessa troca.

Não tenho como mudar meu berço, tampouco é o que quero. Não tenho como dissolver os momentos ruins com o meu pai, mas posso muito bem enaltecer os bons. Por tudo o que ele faz, eu não sei se existe outra pessoa no mundo que faria o mesmo. A essa altura da vida, com a mesma saúde. Meu pai não se importa com comemorações. Não faz alarde, não quer presentes, não sabe receber um "parabéns". Na verdade, estou escrevendo para mim mesma, porque o saldo dos 86 é significante, e muito.

11.12.14

2:00am

Se eu fosse listar as cinco maiores insatisfações da minha vida no momento, no meio dos itens com certeza estaria a minha incapacidade de dormir cedo. E por cedo, eu não me refiro a algo em torno de 9h ~ 11h da noite, mas sim a qualquer horário que não ultrapasse as 2h, porque para mim já seria alguma coisa.

Não quero passar a mensagem errada; eu, particularmente, não vejo o problema em ser uma pessoa notívaga, mas nas consequências que isso me traz, visto que a minha rotina não é a considerada comum. Mas, eu aceitei a maneira a qual eu me adaptei a ser, e inclusive adoro trabalhar no silêncio da madrugada. Horário o qual a maioria das pessoas estão dormindo, a cidade se cala, e os que permanecem acordados não incomodam ninguém, por estarem entretidos em suas atividades - sejam elas quais forem - como eu. Para quem preza por tranquilidade, este é o horário.

No entanto, como a luz do dia impera a vida humana, temos de dançar conforme o ritmo dessa música. Eu tenho um trabalho convencional. Gostaria de ser o tipo de profissional autônoma, que faz seus próprios horários, mas ainda sou subordinada de determinada empresa. Tem dias que eu realmente queria dar uns tabefes no cara que inventou o horário comercial, porque, claro, para uma pessoa que tem de estar às 8h30 dando início ao serviço dia, não é nada recomendável que ela vá dormir cerca de cinco horas antes de o despertador tocar. E sim,  eu reconheço que este é um pensamento um tanto egoísta, já que tal convenção contraria a minha rotina e, provavelmente, a de uma minoria. Entretanto, eu gostaria, de qualquer forma, tirar um minuto para apontar algumas vantagens da vida noturna antes de me contradizer.

Acho que desde os meus 14 anos o meu horário de ir dormir foi sendo gradualmente adiado. A princípio a grande culpada foi a internet e o horário nobre das redes sociais, na época em que tudo era entusiasmante demais. Depois foram as minhas leituras que me deixavam acordada até meia-noite, porque os livros eram sempre muito bons e "só mais um capítulo não faria mal". Depois passei a estudar à noite e insistia em cumprir algumas tarefas ao chegar em casa, porque o sono não vinha, e foi assim que cheguei às duas da madrugada e me finquei nesse horário.

Tome pela minha personalidade que me adaptar à vida noturna não me foi difícil. Eu, que sou adepta à minha própria companhia e grande apreciadora da tranquilidade, não me dou com a movimentação e os ruídos do dia. São os carros passando na rua, o rádio do vizinho, as pessoas que insistem em conversar com você ou ao seu redor quando você está clamando por um minuto de silêncio para se concentrar. Nada disso é relaxante nem produtivo. Outro dia, era domingo, e eu estava aproveitando a minha tarde para terminar um serviço freelance enquanto ouvia palestras do TED Talks, quando um vizinho decide que é legal aumentar o som de Shake It Off para o quarteirão todo ouvir. Tudo bem, foi um momento de descontração bacana, só que o vizinho não abaixou o volume mesmo depois de a música ter terminado. Irritação acabou por definir. Este post, que naquele dia já estava nos rascunhos, pediu para ser endossado e publicado, porque, de repente, eu me senti certa vivendo da maneira que vivo.

Só que isso já não está me fazendo mais bem. Eu sou obrigada a viver o dia, e estico a noite por livre e espontânea vontade. Tiro um cochilo à tarde sempre que posso, e ai de quem me julgue. Mas não é mais o suficiente. Há tempos meu pai me aconselha, me chama a atenção, me dá broncas, enfim, me alerta em vários tons sobre esse meu hábito, e finalmente cheguei a um ponto em que eu preciso concordar com ele. Às vezes os dias não são nada gentis, e mesmo deitando a cabeça no travesseiro afinal, o sono demora a chegar. As olheiras denunciam o cansaço, e as tensões musculares também.

Então eu me lembro da minha rotina diurna na infância, a qual eu ia das 6 às 10h incansavelmente. Lembro também da vez em que viajei para o interior de Sergipe e passei uma semana acordando junto com o sol, e indo dormir poucas horas depois que ele se punha. Foi uma boa época, mas que deixou de fazer parte dos meus dias. Eu mudei, gradual e espontaneamente. Hoje, a ideia de abrir mão da madrugada não me agrada, embora eu saiba que preciso escolher o melhor para mim. Sei que vou ter dificuldade em me readaptar, mas preciso tentar. Não tenho certeza se vai dar certo. Pode ser que, às vezes, eu volte a quebrar essa regra, porque é inegável que existe algo de diferente em pensar sob a luz da lua.