10.9.14

Nada não, só saudade

Não lembro se foi no ano passado ou retrasado, mas lembro que era inverno. Também não lembro qual dia da semana foi, eu só lembro que eu não tinha hora para acordar. Não tinha hora, mas mesmo assim acordei cedo com um toque gelado no meu braço. Me mexi, porém não levantei. Outro toque. Virei para o lado de onde vinham as chamadas de atenção, olhei para o chão e encarei o poodle branco que me olhava. Não reparei se ele tremia, mas ao tirar o rosto de baixo do cobertor e perceber como o ar estava gelado, foi o suficiente para eu levantar e ir para o outro quarto pegar um casaquinho para ele. Não lembro se era o de algodão azul bebê ou se era o preto e laranja de lã. Também não lembro se ele foi atrás de mim ou ficou me esperando no meu quarto. Só sei que voltei rapidinho, vesti o cachorro e dei um beijinho. Não demorou para ele deitar e dormir no tapete ao lado da minha cama, e feito isso, eu mesma voltei a dormir. Horas depois, acordei de vez e ele já tinha saído. Não lembro se a janela estava aberta ou fechada, só lembro que pensei "Mais uma da série de coisas que eu amo".

Ontem completei 365 dias sem ele. 365 dias que não foram nada fáceis. Eu poderia escrever um relato completo sobre nossa trajetória, mas palavras nunca fariam jus. Quem tem um bichinho de estimação sabe que essas coisas são maiores que nós, e a ausência não impede a saudade de crescer, nem o amor de se intensificar.

Bilu ♥

5.9.14

O tempo passa, as pessoas mudam

Ou não, não sei. Até hoje eu não consegui estabelecer (ou não consegui entender?) a definição de "mudar"quando estamos falando de gente. Sei que ultimamente tenho me sentido deveras estranha, pois os vinte e um anos de vida estão começando a se fazer evidentes em mim, e é engraçado que me dou conta disso observando as mudanças do meu bairro, e depois reflito essa clareza para o lado de dentro e percebo as mudanças  sofridas ao longo de toda a minha vida. Exemplificando: tem um minimercado aqui no bairro que já está em seu terceiro proprietário desde que nasci, e agora está passando por mais uma reforma. O que me faz lembrar de outra padaria a qual eu frequentava com meus pais quando criança, que fechou depois de dois incêndios e atualmente construíram um buffet no local. A escola onde frequentei o fundamental abriu sua segunda unidade um ou dois anos depois que me formei, e a minha rua, antes mão dupla, agora só segue sentido praia, etc. Por meio das transformações nos arredores, eu percebo o quanto eu já testemunhei no bairro, e indo mais além, o quanto eu testemunhei na vida. Embora eu considere curta a extensão das minhas vivências, elas são minhas. E também é minha essa característica intrínseca de sentir tudo com profundidade, então acho que existe um equilíbrio.

Falando em profundidade, minha reflexão assumiu um caráter introspectivo. (Pausa para um momento "Oh really" para as pessoas que já conhecem e estão fartos desse meu lado). Tinha que ser, afinal, não tenho muito a dissertar sobre a minha experiência de cara no mundo, pois sou indecisa em minhas escolhas e vivo meio dentro de uma bolha. Sorry.

Então, às vezes tento me lembrar de como eu me sentia ao ver filmes da Disney, de quando meu pai chegava em casa e trazia doces, ou de quando íamos para a casa da minha avó e a primeira coisa que eu fazia era correr para o quintal para ver as tartarugas, e quando consigo reacender essas antigas sensações eu me sinto muito bem ao mesmo tempo em que me sinto deslocada no tempo, já que há muito tempo essas são apenas memórias.

Dos quatorze aos dezenove, os anos foram intensos no quesito transformação, porque primeiro eu precisei amadurecer mais rápido do que o meu ritmo de costume e ter mais confiança na minha companhia, e depois tive que encarar o fato de que de precisaria de mais esforço para me manter em pé, porque, baby, perceba que de agora em diante você vai dar seus passos rumo à vida adulta. Sem contar que comecei a falhar mais vezes em metas significativas e tive que lidar com isso. E acima de tudo, fui praticamente forçada a me desinibir. Ainda sou tímida, e muito, mas a dose de inibição foi moderada, para quando eu precisar enfrentar qualquer desafio. E o ocorrido que me fez constatar a prova foi uma briga que tive com meu pai alguns meses atrás. Foi desgastante, como brigas com pais sempre são, a diferença foi que eu não atuei só como ouvinte naquela conversa, como se ocupasse a cadeira de ré. Me deram os meus cinco minutos, e acabei expondo o meu lado tanto quanto ele, já que era uma questão de opinião. Discutimos e no final tudo ficou em silêncio. Tenho sentido que nosso relacionamento está melhor agora, embora não perfeito. E tudo bem, sabe. Aceito as coisas como estão, pois já foi pior para nós. O que me preocupou foi a maneira como eu me senti naquele momento. Cheguei a confidenciar com alguém que temia que essa audácia fosse consequência de amargura, mas não era.

Growing older, growing bolder - foi o que concluí. E esse meu pensamento mexeu tanto comigo, que a princípio não soube como reagir. TBH, ainda estou me acostumando ao fato de que estou reagindo diferente. Ao mesmo tempo em que eu gostaria de ainda ser a garota dócil que não ousava pronunciar palavra, por respeito e incapacidade de machucar alguém, hoje em dia assumir essa postura não se aplica aos meus objetivos como pessoa. Aos vinte e um anos, ser dócil não vai me levar a lugar algum. Então tenho ousado dizer o que penso independente da situação, e especialmente se alguém vem interferir nas minhas concepções. Também reparei que deixei de me apegar às pessoas que não dão certo comigo, pois insistir numa relacionamento que não é compatível naquele momento não vai fazer bem a ninguém. Melhor confiar que o tempo vai trabalhar em nossas vidas e trazer de volta o que partiu quando a sincronia for a mesma e a ligação for mais saudável.

Às vezes, ouço algumas pessoas falando de essência, destacando o termo como palavra-chave quando justificam suas mudanças (seja por qual razão for) o que por vezes soa como uma defensiva da base do próprio ser. Eu, particularmente, acho interessante e também desnecessário. Interessante por ser uma observação contida de certa obviedade, isto é, se você acredita possuir a tal essência, e desnecessário por fazer parte do âmbito pessoal - como a própria palavra diz, algo próprio de você. Quando uma postura, visão, ou reação deixa de ser coerente para ti, porque insistir? Acredito que todo indivíduo é livre para se moldar como acha melhor.

E enfim cheguei onde eu queria, depois de dar voltas e voltas. O verbo "mudar" é o que mais usamos, porém eu creio que todo esse processo é mais um ajuste de nossa persona ao meio em que vivemos, e deveria ter uma acepção imparcial. As pessoas se moldam da forma que elas precisarem se moldar para, sei lá, ultrapassar barra seguir em frente barra superar. Enfim, viver. Cada um sabe do seu verbo e da sua história.