4.8.14

Lacuna

Um suspiro. Dois suspiros. Três suspiros. Não estou contando os doces, estou contando os atos mesmo. Faz tempo que não como suspiros, por serem basicamente feitos de claras de ovos e açúcar, e eu tenho que seguir uma dieta solidária aqui em casa. No domingo passado, quase trouxe um pacotinho para casa, para comer escondida talvez, mas acabei mudando de ideia ali na hora. Por mais que eu tenha meus momentos de não partilhar comida (Yuu doesn't share food!), às vezes é no doce dividido que eu estabeleço um momento de ligação com alguém. Meus dias não têm sido doces, mas também não têm sido azedos. Estou apenas me deixando levar por uma rotina de trabalho, que embora não seja tão, tão intensa, é o suficiente para me deixar alheia de outras coisas.

As páginas do livro que eu estou lendo estão se movendo devagar, porque o embalo do ônibus de manhã e a má iluminação no final da tarde me fazem pegar no sono com facilidade. Mas eu quero muito mergulhar na história, e estou coletando material de leitura aqui no canto da escrivaninha, já que não possuo mesa de cabeceira. Até agora tenho dois livros e duas revistas. Ultimamente tenho tido ideias, muitas ideias, durante o tempo em que fico sozinha. Porém, aquele ânimo para transformar pensamentos em palavras não vem. Gosto de passar o resto do meu horário de almoço sentada na praça, observando o movimento. Acabei me acostumando com a vista, e reparei que o bairro onde trabalho não é de todo melancólico, é o excesso de estabelecimentos e pessoas que deixa o ambiente exaustivo.Só que tem uma fonte nessa praça, e lá perto eu descobri o meu ponto de descanso, e lá que eu começo a ficar (mais) sonolenta.

Além disso, também não posso negar que o sentimento que me toma é o de estranheza. Tenho sentido que h algáo de errado por aqui, desde que o inverno começou e não fez frio. No meu aniversário eu pude usar um vestido, e nas últimas semanas uma blusa de mangas bastou. Eu senti falta, mas tive paciência. Quando a frente fria veio, por alguns dias, eu desesperadamente tirei a jaqueta do armário para ter a chance de usá-la antes que fosse tarde. No domingo vesti uma saia, e a meia calça fina me deixou com calor. Mas não tanto como fiquei hoje. Não sei se adianta eu me explicar, mas eu preciso que faça frio. Não sei porque acredito que eu tenho compatibilidade com a estação, mas eu sempre me sinto revigorada depois de caminhar sob a garoa ou de, simplesmente, sentir o vento frio congelar o meu nariz e bochechas. Tem gente que acha mórbido, mas meus olhos se iluminam com o céu nublado. Eu já tolerei meses e meses de temperaturas quentes, agora quero o conforto que o inverno me traz. Os trinta graus que fizeram hoje, não sei de onde vieram. Agora há pouco o vento começou a bater forte na janela, e eu espero que seja um anúncio para dias de chuva.

Estou sem criatividade e nada do que eu falei (ou tenho falado) faz sentido. É isso que dá ter uma lacuna dentro de si, e não saber exatamente com o que se pode preenchê-la. E daí é que vem o meu suspiro, meus dois suspiros, três suspiros. Não tem suspiros, mas acho que posso me aguentar com um pedacinho de bolo de chocolate.

1.7.14

Em fragmentos

Existem dias em que a paisagem não tem cor aos nossos olhos e o corpo não passa de um pedaço de carne, um invólucro para um alma pequena, um coração apertado e uma mente distante. Nem tudo são flores e nem sempre é possível esconder quando o jardim está murcho, sem previsão de quando vai florescer novamente.

I

Apesar de ainda não ter lido Anna Kariênina, sei que Liev Tolstói abriu o romance com a seguinte frase: "Happy families are all alike; every unhappy family is unhappy in its own way", e eu acho que concordo com ele quanto à parte das famílias infelizes, já que de felicidade eu menos entendo. Só que famílias, independente de como sejam formadas ou qual é a atmosfera que permeia entre seus membros, ainda carrega aquela expectativa de ser o alicerce em qualquer ocasião. Mas, quando tudo o que existe são portas fechadas e calos nas mãos de tanto de bater, é impossível não ir sucumbindo aos poucos. Então a gente sai para andar, sem realmente prestar atenção na movimentação ao redor, na tentativa de entender o que está dando errado nessa dinâmica e quais são as soluções disponíveis. E cede ao desespero quando nenhuma delas parece ser a ideal, porque sempre vai ter alguém em desvantagem: ou você, ou os outros. Ah, se não fosse um sentimento estúpido mais forte do que eu.

II

Para não ficar imersa nesses pensamentos o tempo todo, eu tentei me distrair com outros detalhes e outros fatos. Então eu lembrei que há dois anos, a data de ontem marcou um acontecimento horrível. Era um sábado, e eu lembro que fazia sol. Se o bom tempo tivesse trazido boas notícias, tudo bem, mas não foi assim. Eu tinha que sair naquele dia, mas antes decidi checar as mensagens no facebook. A única que constava, me dizia, com certo tom de urgência, para ver a página de uma determinada pessoa. E eu o fiz. E acabei acompanhando o alarde em torno de uma nota de suicídio postada logo no início daquela manhã. Outras lembranças daquele dia não estão claras na minha memória, apenas lembro da incredulidade crescendo dentro de mim e da teimosia em aceitar o fato. Devia fazer uns cinco anos que eu não falava com essa pessoa, porém o tempo distante não tinha apagado a consideração que eu sentia por ela, visto que convivemos por muitos anos, durante o que eu posso afirmar ter sido a melhor fase da minha vida. Lamento lembrar que uma pessoa tão querida não está mais aqui. Embora eu não concorde com tal impulsividade, eu juro que entendo e não julgo. Especialmente, porque acredito que outros julgamentos devem tê-lo torturado até chegar a tal decisão. E nós, aqui por terra, ficamos naquele: "Eu só queria poder ter feito alguma coisa".

III

Esses dias eu estava explorando playlists no Spotify e de repente me pego ouvindo A dream is a wish your heart makes, e sinto como se tudo ao redor tivesse parado para essa canção. Cinderela não é um dos meus filmes favoritos da Disney, logo sua trilha sonora jamais tivera destaque comigo. Foi de repente que a letra se fez evidente, com exatamente o que eu precisava ouvir. E o melhor era que essa era uma versão feita para um dos cds Disneymania, então a batida da música era animadora e contagiante. Tanto que não seria algo que eu ouviria em dias normais.

"No matter how your heart is grieving
if you keep on believing
the dream that you wish will come true.
(...)
Don't let your heart be filled with sorrow
For all you know tomorrow
the dream that you wish will come true."

Fiquei processando tudo isso, e quis acreditar no surgimento de uma centelha de esperança, como eu sempre quero. Logo, fiz a única coisa que fui capaz: virei o rosto para o travesseiro e chorei.