30.3.14

Capelos para o alto

O dia era 30 de janeiro de 2014. Senti que o momento há tanto esperado começou no táxi a caminho do local da cerimônia. Na metade do trajeto começou a tocar Dancing Queen na rádio e eu considerei isso um bom presságio para a minha colação de grau. Nos meses finais da graduação e nas semanas anteriores a esse grande dia, tentei não pensar muito no fato de que eu finalmente me formaria, para não despertar minha ansiedade. Era mais uma etapa que se concretizava e tudo aquilo ainda parecia fora da realidade. A ficha só caiu quando ABBA começou a tocar, mesmo e o motorista do táxi puxou uma agradável conversa sobre a vida dele nos anos 70. Esta é quarta formatura na minha linha do tempo, e eu deveria estar acostumada com todo o processo, porém, por cada uma delas representarem uma diferente fase da vida, carregam também sentimentos diferentes. No fim de dezembro eu já estava com um humor nostálgico, lembrando de tudo que estava ficando para trás. Pensei nas coisas que aprendi e passei ao longo desses três anos (curso de curta duração ftw) de estudo. E percebi que agora sou uma pessoa diferente da qual eu era quando pisei no campus pela primeira vez.

Em 2010, decidi optar por Letras no primeiro ou segundo bimestre do 3º ano do Ensino Médio, uma época um tanto "em cima da hora" para quem só pensava nos vestibulares, mas me finquei com convicção na minha escolha e isso me manteria com os pés no chão durante o processo. Àquela altura eu já tinha clareza do conforto que eu sentia ao me debruçar sobre os livros, e da faísca de satisfação que brotava no meu peito quando alguém elogiava algum texto escrito por mim. E mesmo que fossem elogios por educação, eu queria que isso fosse algo em que eu fosse boa, então eu fui atrás.

Ingressei na universidade cheia de expectativas pessoais e acadêmicas, e cheia de receios também. Lembro de ter hesitado na porta da sala de aula nº 306 e escolhido um lugar quase na frente para não correr o risco de me distrair durante as explicações. O quadro de aulas que me deram no momento da matrícula me assustou, pois antes as matérias que eram apenas "português", "matemática", "biologia", agora se designavam por expressões do tipo "Tópicos de Literatura em Língua Estrangeira I: Inglesa", em diante. Pois é, pronunciar esses nomes, a princípio me dava frio na barriga. Isso porque eu era uma menina boba (mais do que agora): foi questão de tempo até eu me ajustar à nova rotina, como em qualquer outra etapa dessa vida. Tive de me adaptar à seriedade dos trabalhos e das leituras, e me acostumar com a liberdade a mais do que tínhamos no Ensino Médio. (Vejam bem, eu disse "a mais" e não "integral". Apesar dos comentários que ouvimos por aí, estar na faculdade não significa Carpe Diem, e te aconselho a usar o livre arbítrio com responsabilidade).

Aos poucos fui achando cantinhos na universidade para servirem de cenário para minhas novas memórias. Aos poucos me acostumei com o ambiente da biblioteca, embora jamais tenha me acostumado com o código de organização. Aos poucos fui conhecendo as pessoas da turma, fazendo amigos. Conversando, rindo e - por que não? chorando com eles. Tive sorte de ter terminado em um lugar com pessoas decentes, e professores que não só portavam conhecimento, como também gosto pela profissão e carinho para com os alunos. Bom, pelo menos, a maioria deles. Depois fui introduzida a Bechara, Travaglia, Saussere, Bakhtin, Shakespeare, Flaubert, Poe, Vygotsky, Piaget, Paulo Freire, etc., e fui me sentindo em casa. Lembro, com certa curiosidade, da desmistificação de muitas das minhas expectativas. Por exemplo: eu sempre imaginava que passaria minhas aulas vagas na biblioteca,  estudando, quando, na realidade, aproveitávamos a primeira oportunidade para ir ao bar da esquina comer batata-fritas. E esta foi a minha maior falta.

Em meio a uma sequência de aprendizado de naturezas diversas, e muitos desafios (lê-se "estágios"), o resultado final é compensador. Um mês antes da colação fui assistir Frozen e ao final da sessão passei na Saraiva e encontrei Os Contos da Cantuária na prateleira de literatura estrangeira. Quando tomei-o nas mãos, imediatamente regressei para o primeiro ano da faculdade, na aula de Literatura Inglesa, em que meu grupo apresentou o conto da Prioresa, acho. Junto a esse, muitos outros nomes foram guardados, e levo até Madame Bovary no coração, apesar de todos seus defeitos. Estou falando, é claro, de títulos e nomes fictícios, mas existem nomes de personagens reais igualmente significativos nessa história aos quais eu sou grata por ter conhecido. Sem mais delongas, o que venho tentando expressar é a minha satisfação em ter trilhado um caminho que sempre considerei importante, e que foi concluída quando eu joguei meu capelo para o alto.

Entrada do auditório, morrendo de calor debaixo dessa beca.

24.3.14

Meu relógio parou, de novo

Quarta-feira foi um dia que saiu da rotina, porque tive de, inesperadamente, trabalhar o dia inteiro. Isso fez o meu dia desabar. Não pelo trabalho, mas por essa mudança não ter sido premeditada. Fiz o melhor que pude abdicando inclusive dos meus intervalos durante o expediente. Mas teve uma hora que eu precisei buscar refúgio, e por alguns minutos me escondi no banheiro. Senti que precisava molhar as mãos, e para isso, sempre tiro o relógio do pulso. Só que, naquela vez, não tive cuidado nenhum: destravei o relógio e deixei-o cair no tapete. Antes de sair peguei-o de volta e coloquei no pulso. Só que, na hora de sair - e respirar um pouco de ar, pensar na vida durante o trajeto de volta, - reparei que ele não estava mais funcionando. Não é exagero dizer que eu me senti desesperada por um momento. Logo deduzi que a bateria tivesse acabado, mas não pude deixar de cogitar, ao mesmo tempo, que meu ato impulsivo, fruto do estresse diário, tivesse feito meu relógio parar. Me senti culpada pelo relógio. No dia seguinte, deixei-o em casa, com um bilhete dizendo à minha mãe que se ela saísse, que, por favor, passasse na relojoaria para trocar a bateria - tinha dinheiro na mina carteira. E ela assim o fez. Meu relógio voltou a funcionar. Esse episódio me fez concluir duas coisas: 1) tive sorte dessa vez, mas posso vir a ter arrependimentos permanentes se continuar perdendo o controle diante dessas situações circunstanciais; 2) tenho um relacionamento com o meu relógio mais forte do que tenho com alguns conhecidos. E não se preocupem, vou tratar de essa ser a última vez que escrevo sobre ele.
 
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