27.9.14

Dear Jane Austen: a heroine's guide to life and love

A essa altura não é novidade para ninguém o quanto Jane Austen é uma constante na minha vida. Inexplicavelmente, um dia peguei emprestado um livro que minha amiga descreveu como sendo água com açúcar, e embora Fanny Price acabou não me conquistando, não desisti da pessoa que a criou. Eu posso passar um bom tempo sem ler nada de ou sobre Austen, mas o interesse por ela jamais diminui. Então em 2012 descobri dois livros escritos por Patrice Hannon, PhD em Literatura Inglesa que atualmente leciona e escreve sobre autores clássicos como Austen, Dickens, Wilde e Tolkien: o primeiro é 101 Things You Didn't Know About Jane Austen que contém 101 fatos selecionados, objetivos, e pouco conhecidos (como o próprio título sugere), divido em categorias que abrangem desde a vida pessoal da autora até suas produções e outras curiosidades; e o segundo é Dear Jane Austen: a Heroine's Guide to Live and Love, um livro curtinho que tem o intuito de atuar como um pequeno guia de autoajuda no estilo austeniano, que terminei de ler no meio do mês e despertou a minha vontade de comentar sobre, se tornando, portanto, o foco do post.

Dear Jane Austen é divido em dez capítulos que abordam a relação da heroína com sua própria personalidade, sua família, seus amigos e o mundo, e também fala sobre outras necessidades da vida como dinheiro e dicas de beleza. E, como não podia faltar, no âmbito romântico, "Austen" explica como uma heroína reconhece o seu herói e como o relacionamento deve ser conduzido se houver a possibilidade de casamento ou s-xo (nessa grafia mesmo, rs). E, no geral, o que seria o tão chamado final feliz.

Cada um desses capítulos apresentam em média duas situações provenientes das cartas de heroínas em treinamento, as quais Austen responde em seu melhor conhecimento. As cartas são curtas, e as respostas nem tanto. Quem já leu qualquer um de seus romances já deve ter reparado em como seus parágrafos são longos, logo, as respostas seguem o mesmo estilo, num fluxo de pensamento contínuo. Achei interessante as constantes - e até inevitáveis - comparações com as situações vividas pelas personagens dos livros, e de vez em quando, os intervalos que essa Jane Austen faz para contar brevemente as suas próprias experiências, e abrir um espaço para descrever a reação dos seus irmãos à sua visão de mundo.

Apenas demorei um pouco para entender a dinâmica de correspondência do livro, mas, ao que parece, Jane Austen responde às suas heroínas em treinamento contemporâneas em seu próprio período histórico, porém, ela detém conhecimento das normas de conduta e dos costumes da sociedade atual, os quais, não é nenhuma surpresa, são seriamente questionados pela autora. O twist temporal foi um atributo confuso, porém não influiu no entendimento nem no propósito. Uma vez habituada com a leitura, ouso até dizer que esse recurso dá a sensação de estarmos na chamada sala de leitura, acompanhando ali a redação das cartas.

Devo admitir que, ao todo, Patrice Hannon fez um trabalho fantástico. A começar pela percepção de que os estudos sobre Austen podem resultar na identificação dos seus leitores. Isso se dá graças à narrativa dos romances ser em maior parte um retrato da sociedade vitoriana e sua organização social, de situações tão mundanas quanto as que vivemos na sociedade atual, interagindo com diversos perfis (algo que O Clube de Leitura de Jane Austen também captou, porém sem abordar o assunto diretamente, preferindo criar uma outra história propriamente fictícia). E depois, por criar uma situação adequada, embora improvável pelo intervalo entre as épocas, para o contato da autora e das atuais heroínas, com bastante atenção à linguagem utilizada, o que é essencial para dar caráter ao livro.

Pessoalmente falando, confesso que estranhei ler os pronomes em primeira pessoa, pois ainda não tive muito contato com materiais biográficos de Austem e os romances são sempre narrados em terceira pessoa. Nos intervalos da leitura eu sempre me perguntava se Jane Austen de fato escreveria dessa maneira ou teria tais ideias perante a conduta nos dias de hoje. E não consegui deixar de lembrar de Amor e Inocência (2007), que é um dos pouquíssimos filmes que retratam uma parte da vida de Jane Austen em si, e exploram as motivações por trás de Lizzie, Darcy, Emma, Knightley (...). Também consegui compreender as morais dos conselhos, e inclusive me identifiquei com eles. Confesso que não é difícil eu tentar me refletir numa situação que Jane Austen descreveria.

Acredito que o livro não seja muito conhecido aqui no Brasil, pois dei uma rápida pesquisada na internet, e não achei nenhuma outra opinião ou resenha por aí. Então escrevi com o intuito de compartilhá-lo para talvez poder interessar alguém, e talvez, só talvez, ouvir outra opinião (nada mais frustrante do que não ter alguém para discutir sobre algo, huh?). Então eu deixo a recomendação para as heroínas/fãs de Jane Austen, que precisem - e queiram - ter conhecimento desses conselhos fiéis ao coração, ou um leitor que simplesmente esteja procurando por uma leitura levinha e, vale notar, em inglês, uma vez que o livro não tem tradução.


10.9.14

Nada não, só saudade

Não lembro se foi no ano passado ou retrasado, mas lembro que era inverno. Também não lembro qual dia da semana foi, eu só lembro que eu não tinha hora para acordar. Não tinha hora, mas mesmo assim acordei cedo com um toque gelado no meu braço. Me mexi, porém não levantei. Outro toque. Virei para o lado de onde vinham as chamadas de atenção, olhei para o chão e encarei o poodle branco que me olhava. Não reparei se ele tremia, mas ao tirar o rosto de baixo do cobertor e perceber como o ar estava gelado, foi o suficiente para eu levantar e ir para o outro quarto pegar um casaquinho para ele. Não lembro se era o de algodão azul bebê ou se era o preto e laranja de lã. Também não lembro se ele foi atrás de mim ou ficou me esperando no meu quarto. Só sei que voltei rapidinho, vesti o cachorro e dei um beijinho. Não demorou para ele deitar e dormir no tapete ao lado da minha cama, e feito isso, eu mesma voltei a dormir. Horas depois, acordei de vez e ele já tinha saído. Não lembro se a janela estava aberta ou fechada, só lembro que pensei "Mais uma da série de coisas que eu amo".

Ontem completei 365 dias sem ele. 365 dias que não foram nada fáceis. Eu poderia escrever um relato completo sobre nossa trajetória, mas palavras nunca fariam jus. Quem tem um bichinho de estimação sabe que essas coisas são maiores que nós, e a ausência não impede a saudade de crescer, nem o amor de se intensificar.

Bilu ♥