1.7.14

Em fragmentos

Existem dias em que a paisagem não tem cor aos nossos olhos e o corpo não passa de um pedaço de carne, um invólucro para um alma pequena, um coração apertado e uma mente distante. Nem tudo são flores e nem sempre é possível esconder quando o jardim está murcho, sem previsão de quando vai florescer novamente.

I

Apesar de ainda não ter lido Anna Kariênina, sei que Liev Tolstói abriu o romance com a seguinte frase: "Happy families are all alike; every unhappy family is unhappy in its own way", e eu acho que concordo com ele quanto à parte das famílias infelizes, já que de felicidade eu menos entendo. Só que famílias, independente de como sejam formadas ou qual é a atmosfera que permeia entre seus membros, ainda carrega aquela expectativa de ser o alicerce em qualquer ocasião. Mas, quando tudo o que existe são portas fechadas e calos nas mãos de tanto de bater, é impossível não ir sucumbindo aos poucos. Então a gente sai para andar, sem realmente prestar atenção na movimentação ao redor, na tentativa de entender o que está dando errado nessa dinâmica e quais são as soluções disponíveis. E cede ao desespero quando nenhuma delas parece ser a ideal, porque sempre vai ter alguém em desvantagem: ou você, ou os outros. Ah, se não fosse um sentimento estúpido mais forte do que eu.

II

Para não ficar imersa nesses pensamentos o tempo todo, eu tentei me distrair com outros detalhes e outros fatos. Então eu lembrei que há dois anos, a data de ontem marcou um acontecimento horrível. Era um sábado, e eu lembro que fazia sol. Se o bom tempo tivesse trazido boas notícias, tudo bem, mas não foi assim. Eu tinha que sair naquele dia, mas antes decidi checar as mensagens no facebook. A única que constava, me dizia, com certo tom de urgência, para ver a página de uma determinada pessoa. E eu o fiz. E acabei acompanhando o alarde em torno de uma nota de suicídio postada logo no início daquela manhã. Outras lembranças daquele dia não estão claras na minha memória, apenas lembro da incredulidade crescendo dentro de mim e da teimosia em aceitar o fato. Devia fazer uns cinco anos que eu não falava com essa pessoa, porém o tempo distante não tinha apagado a consideração que eu sentia por ela, visto que convivemos por muitos anos, durante o que eu posso afirmar ter sido a melhor fase da minha vida. Lamento lembrar que uma pessoa tão querida não está mais aqui. Embora eu não concorde com tal impulsividade, eu juro que entendo e não julgo. Especialmente, porque acredito que outros julgamentos devem tê-lo torturado até chegar a tal decisão. E nós, aqui por terra, ficamos naquele: "Eu só queria poder ter feito alguma coisa".

III

Esses dias eu estava explorando playlists no Spotify e de repente me pego ouvindo A dream is a wish your heart makes, e sinto como se tudo ao redor tivesse parado para essa canção. Cinderela não é um dos meus filmes favoritos da Disney, logo sua trilha sonora jamais tivera destaque comigo. Foi de repente que a letra se fez evidente, com exatamente o que eu precisava ouvir. E o melhor era que essa era uma versão feita para um dos cds Disneymania, então a batida da música era animadora e contagiante. Tanto que não seria algo que eu ouviria em dias normais.

"No matter how your heart is grieving
if you keep on believing
the dream that you wish will come true.
(...)
Don't let your heart be filled with sorrow
For all you know tomorrow
the dream that you wish will come true."

Fiquei processando tudo isso, e quis acreditar no surgimento de uma centelha de esperança, como eu sempre quero. Logo, fiz a única coisa que fui capaz: virei o rosto para o travesseiro e chorei.

24.6.14

21

Eis que finalmente estou fincada na casa dos vinte e atingi a maioridade internacional. Minhas melhores amigas fizeram questão de ressaltar esse detalhe em seus telefonemas de felicitação. Posso, oficial e legalmente, ingerir álcool nos Estados Unidos e ser presa na Alemanha (no resto do mundo, já passei da idade, até onde eu saiba) et cetera. Brincadeiras à parte, é uma sensação estranha, essa de fazer aniversário.

Não sei vocês, mas eu tenho mania de voltar ao tempo. Em qualquer dia, a qualquer hora. Basta me dar uma oportunidade de abrir algum álbum de fotografia para eu reviver os vários momentos que foram capturados pelos flashes e eternizados no papel. E eu vejo que eu era tão diferente do que sou hoje, em questão de comportamento, que tem horas que falo da Yuriko de quatro a dez anos na terceira pessoa. Outrora eu acordei na manhã de 24 de junho como a Lily de How I Met Your Mother; nos últimos anos tenho acordado com o espírito do Joey em seu 30º aniversário.

De qualquer forma, é inevitável admitir que a magia do seu aniversário é fazer você se sentir especial, já que este é o marco da sua existência. Acredito que toda pessoa anseie, mesmo no íntimo, algo de diferente nessa data. Pelo menos, a indução a pensar desta maneira é persistente, tanto que me decepcionei quando hoje, excepcionalmente hoje, acordei e não senti nada. Nenhum prospecto de que o meu dia seria o dia.

Esse ano levantei da cama e me arrastei para o chuveiro como faço em qualquer outra manhã. Trabalhei meu período com a mesma energia de sempre. Perdi o ônibus e me atrasei para a hora do almoço, o que foi uma exclusividade. E o resto do dia foi tão morno quanto os outros. Hoje, pela primeira vez, fiquei imaginando como os outros aniversariantes, em qualquer lugar do mundo, estariam iniciando suas manhãs. Pode ser que alguém tenha acordado com café na cama, e que alguém estivesse na mesma naturalidade que eu. Pode ser que alguém tenha sido tomado por melancolia (embora eu espere que não), ou qualquer outro sentimento que não consigo descrever. Apesar de eu ter ciência de que divido esse dia com muitos outros, apenas hoje eu voluntariamente me desvinculei de mim e parei um minuto para considerar o resto do mundo. Conheço poucas pessoas que comemoram seus anos de vida no mesmo dia, portanto sempre deixei meu egocentrismo me dominar.

Porém, me disseram que conforme você vai chegando à idade adulta as responsabilidades da vida tomam o foco desses detalhes. Estou sentindo isso. Porque hoje é terça-feira e eu tive de ir ao banco, e a rotina que me afasta de quem me importa me fez passar o dia entre livros e televisão como faço em qualquer tarde. Só que eu não estou pronta para desistir ainda.

Nos meus aniversários eu tiro um momento para fazer uma autorreflexão mais profunda, que, em suma, consiste em me basear na minha nova idade para fazer um balanço das coisas que eu já alcancei até essa altura, e as que eu pretendo alcançar até a próxima marca. Sei que preciso, essencialmente, focar no meu lado emocional que ao mesmo tempo é tão influente e inconstante. Tirando uns poucos momentos de frustração em que passa pela minha cabeça que eu deveria ter feito isso e aquilo quando eu tinha tantos anos ou estava em tal fase, na maioria das vezes fico satisfeita pelos meus resultados concretos e tento não exigir demais de mim para o futuro por mero receio e ansiedade. Também preciso dizer: não sou adepta a fazer listinhas de motivos pela qual eu sou grata. Acho que a minha antipatia pelas datas propícias para tal me deixavam com a visão embaçada para isso. Mas, inconscientemente, esses motivos me ocorreram e se colocaram em ordem de forma tão espontânea, que eu realmente tenho motivos a agradecer. Estão aqui, afinal, e em construção por tempo indeterminado.

Tive meus momentos ranzinzas ao longo do dia, que se dissiparam a cada vez que o telefone tocava com uma voz familiar (um caso de exceção a minha aversão ao aparelho). Não foi nada demais, mas das 00h00 às 23h59 tentei ter consciência de mim como foi possível.

Esse texto certamente não transmitiu tudo o passou pela minha cabeça. Eu só precisei escrevê-lo com urgência, porque tenho esse hábito. Registrei meu aniversário de 18 anos, em que eu me conformei com o crescimento assim como Wendy Darling, e meu aniversário de 19 anos, em que tentei montar um projeto para receber dezenove cartas, e no final recebi apenas doze que se tornaram mais especiais do que a minha meta. Não escrevi nada aos 20 e sinto falta de ler algo sobre. Então cá estou eu, esboçando as primeiras linhas dos 21.

Não exatamente a quem estou agradecendo, mas aqui vai: obrigada. Obrigada por ter lido. Vou compartilhar uma música que ficou na cabeça o dia todo, porque eu a ouvi na trilha sonora de Gilmore Girls, e fim.

 
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