16.10.14

O Captain! My Captain!

Que Walt Whitman nos perdoe por ter desvirtuado a metáfora de seu poema sobre a morte de Abraham Lincoln em 1865; mas depois de este ter sido referenciado em A Sociedade dos Poetas Mortos, não há quem não queira subir numa cadeira para bradar o orgulho e o agradecimento aos seus mestres com esse verso. Quatro palavras contidas de uma distinta sonoridade que representam bem tudo o que podemos dizer aos nossos professores.

Tudo bem que dia 15 de outubro foi ontem, e como sempre, demorei a me manisfestar sobre o assunto. Não sei justificar minha constante relutância, talvez eu goste de fazer as coisas sem alardes diante da minha timidez e da minha preocupação com o trato das palavras. Que a verdade seja dita, não sei congratular as pessoas em datas especiais utilizando os votos mais comuns; de prosperidade a condolências, todos me deixam sem graça. Dizem que tenho tendência a pensar demais correndo o risco de falar de menos, e eu concordo. Mas, seria um ultraje deixar a data passar em branco, dada a relação que eu tive com meus professores a minha vida inteira.

Se eu tivesse de narrar a minha história, daria ênfase ao fato de que minhas tias são pedagogas e me cercaram com livros desde que eu era criança. Se eu apresentei facilidade em aprender quando pus meus pés na escola pela primeira vez, devo dar créditos, em primeiro lugar, a elas. No primeiro dia de aula, a propósito, quando eu estava chorando por não querer ficar, as tias tiveram toda a paciência do mundo para me fazer soltar a minha mãe e me levar para a sala de aula. Não sei se é invenção do meu cérebro, mas acho que lembro a primeira vez em que reconheci as vogais "o" e "i" formando "oi". Oi pra você, mundo escolar, que a mim se tornou receptivo por estar muito bem orientado. Nunca deixei de levar broncas quando era necessário, tive estrelinhas no caderno a cada lição de casa feita e conferida sdds estrelinhas de incentivo, minhas notas sempre foram justas e minha mãe só precisou ser chamada na escola quando eu me machucava feio no colégio. Os outros alunos e eu, nós negociávamos as melhorias no nosso comportamento ali na sala sem complicações. E a vantagem disso tudo? Confiança.

Em mais de uma década de ensino formal, cada ano tinha suas dificuldades. A gente cresce e os problemas não se limitam apenas às disciplinas que eram ensinadas. A tal da visão de mundo se expande e até a compreensão que a gente tinha do mundo até agora, pode sofrer aquele desequilíbrio. E, mais uma vez, tive sorte, porque os meus professores, todos eles, nunca me deixaram na mão quando eu precisei de uma referência que ia além da matéria dada.

São pouquíssimos os professores cujo o nome tenho dificuldades de lembrar, procuro guardar pelo menos uma boa memória da maioria, e alguns sem esforços foram gravados no meu coração, porque eu vivo à base de modelos e estou aberta a quem quiser me ajudar a tornar alguém melhor do que eu sou hoje. E por que você está falando tudo isso agora, Yuu? Reconhecimento nunca é demais. Desde a faculdade eu tive mais e mais certeza de quem escolhe transmitir conhecimento deve fazê-lo com amor pelo que faz, especialmente em tempos de desvalorização. Eu acho irônico e até mesmo indigno eu portar um diploma de licenciatura sendo que sei que não tenho aptidão para assumir tal responsabilidade. E também não entendo a dificuldade de tanta gente entender que quando dizem que educação é a base, é porque realmente é.

Eu tenho uma gratidão imensa por todos os meus professores do Rita de Cássia, do Santa Cecília, da Unisantos e da Cultura Inglesa. Por terem contribuído com a minha educação, por terem tirado as minhas dúvidas depois da aula, por terem aberto portas, por terem me aconselhado e até suportado os meus dias mais difíceis. Meu pai só me disse isto uma vez quando eu era criança: "Na escola você deve respeitar sua professora tanto quanto você respeita o papai e a mamãe em casa". Levei para a vida e nada deu errado.



9.10.14

It was just my imagination

Procuro o meu eu de cinco anos atrás. Um metro e sessenta, cabelos na altura dos ombros, óculos de armação vinho, roupas que jamais chamam a atenção. Não que a aparência importe, mas ajuda a reconhecer. Estou buscando, na verdade, lembrar a maneira como eu me sentia naquela época. Lembro muito bem que odiava a minha escola do Ensino Médio, e as manhãs só se tornavam toleráveis por conta da companhia. Estava tão insatisfeita, que o lado exterior deixou de significar algo para mim, e cinco anos atrás eu vivia muito mais dentro da minha mente do que fora dela.

Aos dezesseis eu não me preocupava com a passagem do tempo e aproveitava o momento. Passava as tardes deitada no sofá da sala, lendo um livro atrás do outro com aquela fluidez que hoje me causa inveja. Aos dezesseis, esses mesmos livros instigavam a minha imaginação a ponto de eu sentir ânsia de escrever, a todo o momento, textos de qualquer natureza. Dos meus contos, não importava o tema ou a profundidade atingida, desde que se materializassem diante de mim e eu desligasse o computador satisfeita por ter produzido, mesmo que naquele momento eu não gostasse do que fora produzido.

Um dia, me disseram que eu escrevia bem e eu acreditei, porque queria que fosse verdade. À noite, sonhava acordada e sonhava dormindo. Começava imaginando os típicos cenários incapazes de acontecer, mas vividamente eu me via ali, depois meu cérebro trabalhava sozinho e me surpreendia. Às vezes, eu acordava e um objeto totalmente aleatório me inspirava de uma hora para outra. Não fui adolescente de curtir a fase em festas e "rolês" (detesto essa gíria, a propósito), mas dentro de casa eu me esbanjava diante de livros, de folhas de caderno, do Microsoft Word e de redes sociais.

Mas um dia, o tempo livre de adolescente acabou, eu tive que escolher uma carreira, e eu escolhi a que eu achava que só intensificaria o meu processo criativo. E intensificou, na teoria, porque no meio do caminho eu me perdi, sozinha. Não sei quando e como abri os olhos demais, mas me vi preocupadíssima em manter o pé no chão. Talvez achasse que eu alcaria meus objetivos mais rápido, se me concentrasse num tiro certeiro, mas agora vejo que tamanha ambição não combina comigo. A partir do momento em que eu comecei a me privar dos meus momentos de imaginação antes de dormir, pensando nos trabalhos que eu teria de fazer no dia seguinte, idealizando a futura profissão e me preocupando em passar na prova da autoescola, eu me tornei mais concreta e nem tinha percebido.

Acredito que meu vocabulário tenha melhorado, mas não sinto mais desenvoltura em escrever sobre qualquer coisa. Talvez seja por isso que de tempos em tempos eu fique desanimada em manter o blog. Eu leio os posts arquivados e sinto as palavras sintéticas demais, quando outrora eu contava o meu dia com um entusiasmo que começava a partir de uma bala de leite. Acho que me tornei paranoica demais em falar sobre mim, e hoje em dia me preocupo tanto com a minha privacidade, que na falta de ideias abstratas, qualquer texto que eu escreva baseado nas minhas experiências me faz pensar: "Hm, melhor não compartilhar isso".

Estou tentando entender do que eu tenho medo, exatamente. De que chegue gente aqui e me julgue pelo o que eu escreva? De inferiorizarem meus pontos de vista? Ou de começarem a me desvendar, quando a minha defesa é ser uma incógnita?

O dia das crianças é no domingo. Postei uma foto na tag #throwbackthrusday no instagram, de quando eu tinha seis ou sete anos. Na legenda, um trecho de uma música de God Help The Girl. "I was an ace when I was young. I learned to dance, I didn't have to learn. I was a case when I grew up. A case of hope crashing to the ground". Não quis soar dramática com isso (pelo menos uma vez na vida!). Só quis demonstrar que na infância é quando somos mais destemidos para tudo. Não nos incomodamos em soletrar errado, em vestir as roupas mais exóticas só para se parecer mais com um personagem da televisão, em subir no trepa-trepa e se pendurar de cabeça para baixo só para saber como os morcegos se sentem (er...). O que me faz lembrar também do finalzinho de Peter Pan: depois de muito tempo, quando Peter volta para buscar Wendy para a limpeza de primavera e ela diz que não pode ir por não saber mais voar, e, então, Jane vai em seu lugar.

A questão é: o senso de realidade é algo que sempre tive, mas a partir do momento em que me deixei ser dominada eu perdi uma coisa que me fazia feliz: ser a pseudoescritora das minhas histórias, sejam elas reais ou inventadas. Talvez meus personagens e meus cenários servissem de inspiração para mim sem eu perceber. Porque é comum as coisas girarem ao meu redor sem eu me dar conta disso. Anos atrás comecei a escrever a escrever um conto de uma menina que trazia objetos dos seus sonhos noturnos. Talvez seja hora de tirar da gaveta, e não me deixar perder enquanto ainda estou ciente do poder do pó de fada.

Mais uma vez: se é que isso faz sentido.